A moral e a política: Maquiavel, Montesquieu, Bobbio e a crise político-institucional no Brasil comtemporâneo (2026)
Montesquieu – Vós não me dais nenhum lugar na vossa política, nem na moral, nem na religião, nem no direito; vós não tendes na boca senão duas palavras: a força e a astúcia.
Maquiavel – Mas não sois vós mesmos que havíeis dito que nos Estados despóticos o medo é necessário,
A virtude é inútil, a honra é perigosa; que precisava uma obediência cega e que o príncipe
estaria perdido se cessasse de levantar o braço um só instante?
RESUMO
Este artigo analisa a tensão entre moral e política a partir da obra O Príncipe (1513), de Nicolau Maquiavel, confrontando-a com as reflexões de Norberto Bobbio, Antonio Gramsci, Claude Lefort e Montesquieu. Em seguida, estabelece uma analogia com a atual conjuntura brasileira, marcada por escândalos recorrentes entre altas autoridades, instituições, polarização deletéria e ausência de estadistas. Conclui-se que a distorção vulgar do maquiavelismo — reduzido ao jargão “os fins justificam os meios” — contribui para a banalização da corrupção, enquanto a verdadeira lição do secretário florentino aponta para a necessidade de virtù e realismo pragmático sem abandono da responsabilidade ética, sob a forma de instituições republicanas sólidas — exatamente o que Montesquieu sistematizou como a separação dos poderes e o espírito das leis.
Palavras-chave: Maquiavel. Montesquieu. Moral. Política. Bobbio. Gramsci. Lefort. Crise brasileira. Estadistas.
1. INTRODUÇÃO
A relação entre moral e política constitui um dos problemas mais duradouros da filosofia ocidental. Desde Platão e Aristóteles, passando por Agostinho e Tomás de Aquino, predominou a visão de que a política deveria ser subordinada à ética, entendida como extensão da moral individual. No limiar da modernidade, Nicolau Maquiavel (1469-1527) rompeu de forma dramática com essa tradição ao sustentar que a política possui uma lógica própria, irredutível aos preceitos da moral cristã ou à bondade privada. “Daí nasce uma controvérsia, qual seja: se é melhor ser amado ou temido. Pode-se responder que todos gostariam de ser ambas as coisas; porém, como é difícil conciliá-las, é bem mais seguro ser temido que amado.” (O Príncipe. Capítulo XII).
Entretanto, a recepção vulgar de Maquiavel — aquela que o transforma em sinônimo de cinismo ou perversão e maquiavelismo — obscurece a complexidade de seu pensamento. No Brasil de hoje, onde escândalos envolvendo “pretendentes aos cargos de poder” e “altas autoridades da República” se sucedem diariamente, emergem questões candentes: a separação maquiavélica entre moral e política justificaria qualquer meio? Haveria um limite ético intransponível mesmo na razão de Estado?
Este artigo busca responder a essas perguntas, revisitando Maquiavel, dialogando com Bobbio, Gramsci, Lefort e Montesquieu, e aplicando essas lentes focais à crise política brasileira. A inclusão de Montesquieu é deliberada: se Maquiavel diagnosticou a autonomia da política, foi Montesquieu quem prescreveu a arquitetura institucional capaz de conter os abusos que essa autonomia torna possíveis.
2. MAQUIAVEL: A AUTONOMIA DA POLÍTICA E A RUPTURA COM A MORAL TRADICIONAL
Em O Príncipe (1513), Maquiavel descreve a realidade política como ela é, não como deveria ser. No famoso capítulo XV, ele escreve:
Muitos imaginaram repúblicas e principados que jamais foram vistos ou conhecidos como verdadeiros. Mas como há distância de como se vive a como se deveria viver, quem abandona o que se faz pelo que se deveria fazer aprende antes a sua ruína do que a sua preservação. (MAQUIAVEL, 2011, cap. XV, p. 73)
Para o gênio florentino, o governante que quiser manter o Estado deve aprender “a não ser bom” e usar essa capacidade conforme a necessidade. No capítulo XVIII, sobre a “raposa” (conhecer as armadilhas) e o “leão” (aterrorizar os lobos), Maquiavel sintetiza a ideia de que virtù — a habilidade de agir conforme os tempos e as circunstâncias — pode exigir o uso da força, da dissimulação e até da crueldade:
“É necessário, pois, que o príncipe tenha um espírito disposto a volver conforme os ventos e as variações da fortuna lhe ordenem, e, como já se disse, não se afastar do bem, se possível, mas saber entrar no mal, se necessário.” (MAQUIAVEL, 2011, cap. XVIII, p. 86). É a chamada “práxis política”.
No entanto, é preciso cuidado: Maquiavel nunca defendeu a maldade pelo prazer ou por princípio. A “crueldade” deve ser “bem usada” — rápida, necessária e voltada para a estabilidade do Estado. No capítulo VIII, ele distingue a crueldade “bem usada” (a que é praticada de uma só vez, por necessidade de segurança, e depois convertida em benefício dos súditos) da crueldade “mal usada” (a que se repete ao longo do tempo). O príncipe deve parecer piedoso, fiel e humano, pois a opinião dos súditos importa.
Como observa Skinner (2017, p. 45), Maquiavel não ensina o mal, mas alerta que, em situações extremas (guerra, conspiração, crise institucional), o governante virtuoso pode ser forçado a agir contra a lei moral para salvar a pátria. Essa é a tragédia da ação política segundo o grande pensador: a inevitável mancha nas mãos de quem governa.
3. BOBBIO, GRAMSCI, LEFORT E MONTESQUIEU: QUATRO (RE)LEITURAS CONTEMPORÂNEAS (E UMA CLÁSSICA) DE MAQUIAVEL
3.1 Norberto Bobbio: realismo e ética mínima na democracia
Norberto Bobbio (1909-2004), um dos maiores intérpretes de Maquiavel no século XX, retoma essa tensão em obras como Qual Socialismo? e O Futuro da Democracia. Bobbio reconhece a autonomia da política, mas insere-a no quadro do Estado democrático de direito. Para ele, a política moderna não pode ignorar a moral, pois a democracia exige transparência, alternância no poder e respeito às regras do jogo.
Bobbio (2011, p. 112) distingue entre: (i) Moral da convicção (seguir princípios absolutos, mesmo que o mundo pereça); (ii) Moral da responsabilidade (calcular consequências, típica do político maquiavélico); e (iii) Ética pública democrática (limites procedimentais: Constituição, direitos humanos, separação de poderes).
Quando Maquiavel admitia a exceção para salvar o Estado, Bobbio alerta que, em regimes democráticos, as exceções tendem a se tornar regra e a corroer a legitimidade. Assim, a “razão de Estado” maquiavélica precisa ser temperada pelo Estado de Direito. Caso contrário, todo político corrupto ou autoritário poderá invocar Maquiavel para justificar seus atos — o que é um erro de leitura, pois Maquiavel supunha que o fim (estabilidade, ordem, liberdade coletiva) fosse genuinamente público, não privado ou faccional.
3.2 Antonio Gramsci: Maquiavel como “manual do revolucionário”
Antonio Gramsci (1891-1937), em Cadernos do Cárcere, oferece uma leitura originalíssima: Maquiavel não é apenas o teórico do príncipe absoluto, mas o analista da formação do Estado moderno. Gramsci vê em O Príncipe um “manifesto político” disfarçado de tratado filosófico, destinado a criar um novo bloco histórico.
Para Gramsci (2001, p. 23), o “Príncipe” não é uma pessoa, mas uma metáfora do partido político revolucionário. O realismo maquiavélico — a disposição a usar todos os meios necessários, inclusive a força e a dissimulação — é, para o marxista sardo, uma lição indispensável à classe trabalhadora que deseja conquistar o poder e mantê-lo frente à reação burguesa. No entanto, Gramsci insiste que o fim último da política é a sociedade regulada (uma forma de comunismo), onde o Estado se dissolve e a coerção dá lugar à hegemonia ético-cultural. Portanto, mesmo em Gramsci, a violência e a “imoralidade” política são meios transitórios, não fins.
Aplicando ao Brasil: a leitura gramsciana nos ajuda a compreender como certos grupos políticos (de esquerda, de centro ou de direita) justificam seus “excessos e até seus malfeitos” como necessários para alcançar uma suposta sociedade melhor — mas sem jamais entregar o que prometem. A crítica gramsciana denuncia a instrumentalização do maquiavelismo sem o horizonte ético da emancipação.
3.3 Claude Lefort: Maquiavel e o lugar do poder vazio
Claude Lefort (1924-2010), filósofo francês, reinterpreta Maquiavel como pensador da democracia moderna. Em O Trabalho da Obra Maquiavel, Lefort (1999, p. 167) sustenta que a grande descoberta de Maquiavel é que o poder político não pertence a ninguém: ele é um “lugar vazio” que os homens ocupam temporariamente, sempre sujeito ao conflito e à luta de interpretações.
Para Lefort, a ruptura maquiavélica com a moral tradicional cristã não leva ao niilismo, mas à fundação e edificação do político como dimensão simbólica irredutível. Nas democracias modernas, esse “lugar vazio do poder” manifesta-se nas eleições periódicas, na alternância, na crítica midiática e nos movimentos sociais. O príncipe que tenta ocupar permanentemente esse lugar — agarrando-se ao poder como propriedade privada — destrói a democracia.
A leitura lefortiana é devastadora para o Brasil contemporâneo, onde inúmeros “pretendentes aos cargos de poder” agem como se o Estado fosse um feudo hereditário. A polarização deletéria, segundo Lefort, surge precisamente quando se tenta identificar o poder com uma pessoa, um partido ou uma ideologia exclusiva — esquecendo que, numa República, o poder é sempre provisório, contestado e simbólico.
3.4 Montesquieu: do antídoto institucional ao maquiavelismo vulgar
Charles-Louis de Secondat, Barão de Montesquieu (1689-1755), não escreveu propriamente sobre Maquiavel, mas contra o que ele representava quando mal interpretado. Em O Espírito das Leis (1748), Montesquieu aceita a premissa maquiavélica de que os governantes são movidos por paixões — ambição, medo, desejo de poder — mas rejeita a conclusão de que a solução seja encontrar um príncipe com virtù excepcional. Pelo contrário: como os homens são falíveis por natureza, o remédio não está no governante, mas na arquitetura das instituições.
A contribuição fundamental e imprescindível de Montesquieu para o problema moral e política é tripla:
Primeiro: a separação dos poderes. Contra Maquiavel, que concentrava no Príncipe a capacidade de decisão extrema, Montesquieu demonstra que “o poder freia o poder” (Le pouvoir arrête le pouvoir). Nos capítulos XI e XII de O Espírito das Leis, ele estabelece que Legislativo, Executivo e Judiciário devem ser independentes e mutuamente controladores. Um parlamento que fiscaliza, um chefe de executivo que veta, um judiciário que julga os atos dos outros dois — eis a verdadeira virtù republicana, que não está num homem, mas num bom e virtuoso sistema.
Segundo: a distinção entre república, monarquia e despotismo. Montesquieu classifica os regimes não por sua forma nominal, mas por seu princípio: a república exige virtude cívica (o amor à pátria e à igualdade); a monarquia exige honra (a busca por distinção dentro da lei); o despotismo exige medo. O Brasil, nominalmente uma república, já adianto, oscila perigosamente entre a exigência de virtude cívica e a prática do despotismo — onde um governante ou uma facção (delinquente) decide sozinha, sem freios.
Terceiro: a crítica à corrupção como degradação do princípio republicano. Para Montesquieu, a corrupção não é apenas desvio de recursos, mas a erosão da virtude cívica. Quando os cidadãos preferem vantagens privadas ao bem comum; quando os representantes compram votos com cargos ou emendas; quando o Judiciário se torna faccional e o Legislativo refém do Executivo — aí a república já morreu, ainda que as urnas funcionem. Ele escreveu: “A corrupção começará quando os cidadãos, tendo adquirido bens, só queiram poder para si, e quando o poder, tendo adquirido glória, só queira riquezas para si” (MONTESQUIEU, 2000, p. 89).
Aplicando ao Brasil: Montesquieu diria que a crise brasileira não é apenas de “estadistas” (faltam líderes), mas sobretudo institucional. O orçamento secreto, a promiscuidade entre poderes, a banalização das medidas provisórias, o foro privilegiado que eterniza a impunidade — tudo isso é a antítese do espírito das leis. Onde Maquiavel pede um príncipe com virtù, Montesquieu pede leis bem-feitas e poderes que se vigiem, com parcimônia republicana. O Brasil precisa desesperadamente de ambos.
4. O BRASIL ATUAL: ESCÂNDALOS, POLARIZAÇÃO E A SÍNDROME DO “MAQUIAVELISMO DE SALÃO”
Transportando esse arcabouço teórico para o Brasil contemporâneo, observamos um quadro paradoxal: a classe política frequentemente invoca uma suposta “necessidade” (realismo/pragmatismo maquiavélico) para justificar expedientes moralmente reprováveis, ao mesmo tempo em que falta a virtù verdadeira — a capacidade de unir o país em torno de projetos duradouros e hígidos.
4.1 Escândalos recorrentes
Mensalão (2005-2012), Lava Jato (2014-2021), orçamento secreto (2020-2022), rachadinhas, joias de propriedade presidencial (2023), interferências indevidas na Polícia Federal, fraudes no INSS, escândalo monumental do Banco Master, interferência política, indevida e exacerbada do judiciário (STF) e outros são exemplos de como “pretendentes aos cargos de poder” e “altas autoridades da República” tratam a (res)pública como espólio privado. Aqui, não se trata do dilema maquiavélico (salvar o Estado ameaçado de colapso), mas de pilhagem endêmica e sistemática. Nas palavras de Bobbio (1986, p. 91), é a corrupção como deformação patológica da política, não sua autonomia.
Montesquieu complementaria: “Quando as leis deixam de ser respeitadas, a república se torna um despotismo disfarçado” (MONTESQUIEU, 2000, p. 112). O orçamento secreto, por exemplo, é a negação máxima do princípio republicano da publicidade — sem transparência, não há controle, e sem controle, há apenas aparência de democracia.
Como Gramsci (2001, p. 56) observaria, tais práticas revelam a absoluta ausência de hegemonia ética: os grupos dirigentes não conseguem convencer a sociedade de que governam para o bem comum, limitando-se a extrair espúrias vantagens privadas do aparelho estatal.
4.2 Polarização deletéria
A divisão maniqueísta entre “nós, os virtuosos” e “eles, os corruptos” — independentemente do lado (petistas, bolsonaristas, centrão) — impede a formação de consensos mínimos. Cada escândalo é imediatamente instrumentalizado para destruir adversários, não para purificar instituições.
Para Lefort (1999, p. 203), a polarização extrema é sintoma do colapso simbólico do poder: como ninguém mais acredita no “lugar vazio” da política democrática, tenta-se preenchê-lo com identidades absolutas (o “mito da nação”, o “povo puro”, a “revolução permanente”). O resultado é a paralisia do legislativo, o descrédito do judiciário (visto como faccional) e a transformação do executivo em alvo diário de pedidos de impeachment e inquéritos.
Montesquieu, que via na moderação o princípio oculto da boa política, diria que o Brasil padece do excesso de paixão e da falta de temperamento republicano. Sem a virtude cívica — o hábito de preferir o interesse público ao privado — a polarização não é debate, é guerra civil fria, quase sempre estéril, mas sempre parasitária.
4.3 Míngua de estadistas
Estadista é aquele que antepõe o interesse coletivo de longo prazo às vantagens imediatas de seu partido ou de sua carreira. O Brasil tem produzido, nas últimas décadas, majoritariamente políticos de ofício — hábeis no jogo eleitoral, no toma-lá-dá-cá orçamentário e no marketing pessoal, no nefasto fisiologismo e clientelismo barato (logrolling), mas incapazes de formular políticas de Estado que superem as adversidades, provoquem um debate nacional propositivo e atravessem governos de plantão.
Falta a virtù maquiavélica autêntica: coragem para enfrentar corporações, para reformar sistemas (tributário, político, previdenciário, saúde, educação, segurança pública e justiça penal) sem olhar vesgo as pesquisas de opinião, e para dizer ao eleitor verdades incômodas. Como escreveu Maquiavel: “Nada torna um príncipe mais estimável do que grandes empreendimentos e feitos raros” (MAQUIAVEL, 2011, cap. XXI, p. 96).
No Brasil, a verdade é que “grandes empreendimentos” foram substituídos por “medidas provisórias de apelo imediatista” e “auxílios emergenciais com viés eleitoreiro”.
4.4 O diagnóstico montesquieuano: crise de poderes, não apenas de pessoas
Se Maquiavel pergunta “quem governa?”, Montesquieu pergunta “como se governa?”. Sob essa lente, o Brasil revela um problema mais profundo que a simples falta de estadistas: há uma deformação institucional que impede que bons governantes governem bem e que pune os maus tarde demais.
O legislativo brasileiro, em vez de legislar e fiscalizar, negocia emendas de relator (o antigo orçamento secreto) e cargos com o Executivo em troca de apoio. O Judiciário, em vez de julgar com imparcialidade, edita súmulas vinculantes que criam direito novo, interfere em políticas públicas e, em alguns casos, atua como ator político explícito. O Executivo governa por medida provisória, contornando o debate parlamentar. Essa promiscuidade entre poderes — exatamente o que Montesquieu alertou — é a fábrica da corrupção sistêmica.
A conclusão, segundo Montesquieu, é dura: enquanto o Brasil não restaurar a separação efetiva e o controle recíproco entre poderes, nenhum estadista, por mais virtuoso que seja, conseguirá governar sem ser contaminado ou sabotado.
E enquanto o cidadão médio (continuar refém da direita, ventrículo obtuso das redes sociais e da manipulação pragmática e oportunista do centrão, desafeto dos ideólogos da esquerda); e, o cidadão menos favorecido (dependente dos favores dos governantes de plantão) continuar votando em salvadores da pátria (em vez de cobrar instituições funcionais), a crise se perpetuará.
5. ANALOGIA CRÍTICA: O QUE MAQUIAVEL, GRAMSCI, LEFORT E MONTESQUIEU DIRIAM AO BRASIL, HOJE?
5.1 Maquiavel: distinção entre necessidade e ganância privada
Se Maquiavel pudesse observar o Brasil da última década, provavelmente identificaria dois problemas estruturais:
1. A confusão entre “necessidade política” e ganância privada. No capítulo VIII de O Príncipe, a crueldade justificável é aquela “praticada de uma só vez, por necessidade de assegurar-se”. No Brasil, os escândalos envolvem desvio recorrente de recursos públicos para contas pessoais, compra de sentenças, uso da máquina para perseguição a adversários e o poder sendo cooptado e capturado pelo Crime Organizado, hoje endêmico e sistêmico. Nada disso se justifica pela “razão de Estado”. É pura delinquência!
2. A ausência de “boas leis e boas armas”. Maquiavel insistia no capítulo XII que a base do poder são exércitos próprios (não mercenários) e leis que coíbam a ambição dos grandes. No Brasil, as leis são frequentemente usadas como escudo pelos poderosos (foro privilegiado, prescrição, recursos infindáveis), enquanto os “exércitos” e o Judiciário (policiais, forças armadas) vivem tensões institucionais para manutenção do “status quo”.
5.2 Gramsci: a crise de hegemonia brasileira
Gramsci (2001, p. 78) falaria em crise de autoridade: quando os governantes perdem a capacidade de liderar moral e intelectualmente a sociedade, a política se reduz à chantagem, à coerção e ao escândalo. O Brasil atual carece de um projeto nacional-popular que mobilize a sociedade para reformas estruturais. No lugar disso, temos a “guerra de posição” eterna entre blocos que só sabem se opor, não propor.
5.3 Lefort: o poder vazio profanado
Lefort (1999, p. 215) diria que a política brasileira sofre de uma tentativa permanente de identificação do poder: ora a Presidência é tratada como extensão de uma liderança carismática (petismo ou bolsonarismo), ora o Judiciário (STF) age como “superpoder” que pretende decidir sozinho e de modo canhestro os rumos da nação. A consequência é o ódio à democracia, como ele chamou em outra obra: os cidadãos se cansam do teatro político e pedem soluções autoritárias ou salvacionistas.
5.4 Montesquieu: o remédio está na moderação e nos freios
Montesquieu seria o mais pessimista dos quatro, mas também o mais prescritivo. Ele diria: “O Brasil não precisa de um príncipe. Precisa de leis que funcionem mesmo quando os homens são maus. Enquanto o Executivo comprar apoio no Congresso com emendas secretas, enquanto o Judiciário legislar e o Legislativo não fiscalizar, vocês terão apenas a aparência de república — e a substância incubada do despotismo.”
O remédio montesquieuano é impopular, porque não é heroico: fortalecer os controles internos e externos, acabar com o orçamento secreto e com o toma-lá-dá-cá institucionalizado, tornar o Judiciário efetivamente imparcial e o Legislativo efetivamente fiscalizador. Nada disso vende jingle eleitoral, mas tudo isso é pré-condição para qualquer estadista vir a florescer e o Brasil se tornar uma nação com dignidade pujante.
5.5 A necessária síntese entre realismo, instituições e ética política
É necessário entender que o pensamento de Maquiavel não é uma carta branca para a corrupção, mas um convite a encarar a política com seriedade trágica. A moral privada (não mentir, não roubar, não matar) continua válida para os cidadãos. O governante, segundo o homem de Florença, porém, pode em situações extremas — e apenas nelas — agir de modo contrário à “moral” ou à “bondade” comum para salvar a pátria.
O Brasil contemporâneo não vive situação extrema de sobrevivência nacional, mas uma crise crônica de representação e decoro. O que falta não é a permissão maquiavélica para transgredir, mas justamente o oposto: estadistas com virtù para reconstruir a confiança nas instituições por meio de exemplaridade ético-moral e eficácia governamental.
Como sugeria Bobbio (1986, p. 128), a política democrática precisa conciliar a moral da responsabilidade (calcular consequências) com os limites constitucionais (direitos humanos, separação de poderes, segurança jurídica, devido processo legal). Montesquieu acrescenta: a separação de poderes não é um detalhe técnico — é o único substituto confiável para a virtude cívica quando ela rareia.
Fora disso, temos ou cinismo (o falso Maquiavel) ou impotência moralista (cinismo infrutífero) ou os ciberativistas (quem se recusa a sujar as botas, ir à luta, mesmo para defender a democracia).
O maior tributo que o Brasil pode prestar a Maquiavel ou Montesquieu (ou para os verdadeiros homens do saber) não é invocá-los para justificar escândalos, mas relê-los como lição de realismo: o poder corrompe, e só instituições fortes e cidadãos vigilantes podem conter a ambição humana. As leituras de Gramsci e Lefort acrescentam que, sem projeto hegemônico e sem a simbolização do poder como “lugar vazio”, qualquer república degenera em corrupção legalizada ou guerra civil permanente. E Montesquieu conclui com maestria: sem freios efetivos entre os poderes, a república é apenas um nome bonito para o despotismo disfarçado.
6. CONCLUSÕES: O VOTO, A VIRTÙ COLETIVA E O ANO QUE NÃO ADMITE ESPECTADORES — 2026
6.1 O voto e o exercício da cidadania como ato de virtù republicana
Este artigo é escrito em um ano eleitoral decisivo. Não o é apenas porque o calendário assim determina, mas porque o mundo que emerge das ruínas da ordem pós-Guerra Fria — guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, rearmamento global, fragmentação das cadeias produtivas, crise climática irreversível e a reconfiguração das hegemonias entre Estados Unidos, China e um redivivo bloco russo-iraniano — não terá paciência nem piedade com nações frágeis, governantes e líderes pusilânimes.
O Brasil, nas últimas duas décadas, gastou seu capital político interno em escândalos sucessivos, polarização maniqueísta e a progressiva captura do Estado por interesses privados e por potentes organizações criminosas — quando não abertamente institucionalizados na Praça dos Três Poderes.
Enquanto o mundo se reorganiza em blocos de poder que exigem decisão, unidade e visão estratégica de longo prazo, o parlamento brasileiro debate o número de ministérios, o centrão negocia cargos como quem troca gado em feira, e as altas autoridades tratam a República como feudo cartorial hereditário ou vitrine de redes sociais.
Durante a campanha e ao caminhar para depositar o seu voto na urna, pensemos antes em responder essa incômoda pergunta: chegamos a 2026, ano de eleições gerais no Brasil, este país ainda tem estadistas — ou apenas factoides, oportunistas e candidatos?
6.2 Aos candidatos: o preço da mediocridade será a irrelevância
Candidatos e candidatas que lerem estas linhas — se é que ainda leem algo além de relatórios de pesquisa eleitoral — precisam entender uma verdade que o saber jamais ousaria suavizar: governar não é fazer média, é tomar decisões que doem. A reforma tributária não se faz com promessas de “nenhum imposto a mais”, mas com a coragem de dizer ao eleitor que o sistema atual é um Frankenstein que prejudica os pobres.
A segurança pública não se resolve apenas com prisões midiáticas e espetaculosas ou em cima do muro ou com discursos que ora flertam com a militarização submissa ora com a desmilitarização ingênua; exige enfrentar o fato de que o crime organizado já é, em vastas porções do território, um poder paralelo central com mais armas, mais inteligência e mais capilaridade, e o pior: amalgamado ao próprio Estado.
A geopolítica mundial não esperará o fim do seu mandato. A guerra comercial entre China e EUA, o desenvolvimento sustentado, a competitividade internacional, a disputa por terras raras, minérios críticos e segurança alimentar, a transição energética que pode tornar o pré-sal obsoleto antes de esgotado — tudo isso exige respostas imediatas e coordenadas que nenhum governo isolado pode dar se estiver ocupado demais apagando incêndios da própria base aliada e apaniguados.
Candidato que não tiver projeto de nação; que não conseguir nomear um ministério por competência técnica e não por peso eleitoral; que tratar a Amazônia como moeda de troca internacional e não como patrimônio civilizatório; que usar a máquina pública para perseguir adversários ou blindar aliados — esse candidato, eleito que seja, já estará derrotado antes da posse. Derrotado não pelas urnas, mas pela História, que tem memória longa e humor cruel.
Acréscimo montesquieuano aos candidatos: comprometam-se publicamente com o enfrentamento ao crime organizado de dentro para fora das paredes estatais; com um código de conduta e com mandato temporal para os membros do STF; com o fim do orçamento secreto (em qualquer de suas futuras roupagens), com o fim do foro privilegiado para todas as autoridades; e, com a proibição de medidas provisórias sobre matérias orçamentárias e tributárias. Quem não fizer isso, estará dizendo, em bom português: “Quero governar sem ser fiscalizado”. E quem quer governar sem ser fiscalizado, em qualquer república que se preze, não merece governar.
6.3 Aos eleitores: o voto não é terapia, é estratégia
Aos cidadãos, a mensagem é mais dura ainda. O eleitor brasileiro desenvolveu, ao longo destes anos de escândalo atrás de escândalo, uma síndrome, de certo ponto compreensível, mas autodestrutiva: o voto punitivo. Votar no “menos pior”. Votar com o estômago, com a raiva, com o nojo. Ou, pior, a abstenção — o gesto confortável de quem se lava as mãos e diz “política não me representa”.
Nada poderia ser mais oposto à virtù maquiavélica.
Lembrem-se: o Príncipe de Maquiavel não é um déspota hereditário; é um governante novo que precisa conquistar e manter o poder pela força de suas ações. Numa democracia, o poder verdadeiro — o único que pode conter a ganância dos governantes — está na capacidade organizada dos cidadãos de vigiar, cobrar e, se necessário, derrubar. O voto não é um fim; é o início de uma relação de desconfiança ativa.
O eleitor responsável, em 2026, deve exigir:
1. Projetos, não slogans — “Muda Brasil” ou “Brasil Acima de Tudo”… não governam ninguém. Pergunte: qual o plano para a dívida pública? Para as reformas tributária e administrativa? Para inserir o Brasil nas cadeias globais de semicondutores e energias renováveis?
2. Antecedentes, não promessas — O candidato já foi condenado por corrupção? Já nomeou parentes para o governo? Já apareceu em delação premiada? Tem entregas, tem projetos, tem programa de governo com metas aplicáveis e mensuráveis? Tem compromisso com a transparência com os negócios de Estado? Maquiavel tolera a crueldade necessária; não tolera a bandalheira cotidiana.
3. Autonomia, não submissão — O candidato tem coragem de enfrentar seu próprio partido, seu próprio financiador, seu próprio marqueteiro ou guru ideológico? Ou será um fantoche do pragmatismo oportunista do centrão, das centrais sindicais, das bancadas ruralista/da bala/da religião?
4. Visão de longo prazo, não imediatismo eleitoreiro — O candidato fala em “geração de emprego já” ou em “reestruturação produtiva para a próxima década”? O primeiro é populista; o segundo, estadista.
5. Compromisso institucional montesquieuano — O candidato defende o fim do foro privilegiado, o fim do orçamento secreto, a redução das medidas provisórias, a autonomia do Ministério Público e da imprensa? Ou fala apenas em “governabilidade” — palavra que, no Brasil contemporâneo, é quase sempre sinônimo de “espaço para corrupção administrativa e governança de coalizão com o crime”?
6.4 O preço da omissão
A História não premia os espectadores. O Brasil de 2026 não é o mesmo de 2016, nem de 2018, nem de 2022. O mundo mudou freneticamente — e mudou para pior, no que tange à permissividade com democracias frágeis. A guerra híbrida, a desinformação algorítmica, a captura de dados eleitorais por potências estrangeiras, o financiamento obscuro de candidaturas via crime organizado, criptomoedas e offshores: tudo isso torna o processo eleitoral de 2026 o mais vulnerável da história moderna.
O eleitor que se abstém, que vota nulo, que entrega o voto ao candidato mais carismático ou ao mais “antissistema”, sem examinar seu passado e seu programa, não é vítima do próprio sistema — é cúmplice. E aqui a conclusão é inevitável, ainda que dura: a corrupção e a ausência de estadistas no Brasil só persistem porque o eleitorado médio prefere a paixão à razão, a identidade ao projeto, a cólera à responsabilidade.
Maquiavel, que confiava mais nas leis e nas armas do que na bondade humana, diria que isso não é pecado, é realismo: homens e mulheres são, por natureza, movediços, interesseiros e de curta memória. Por isso mesmo, só a vigilância permanente — o olho do cidadão sobre o governante — pode conter a inclinação ao abuso.
Montesquieu, ainda mais pessimista, diria: se o cidadão não vigia, a república morre. E morre não com um golpe militar vistoso, mas com a lenta erosão da confiança, a banalização da desonestidade, a aceitação silenciosa de que “política é assim mesmo”. Nesse dia, o despotismo já venceu — sem tanques, sem censura, apenas com o cansaço e a omissão.
7. CONCLUSÃO FINAL: A VIRTÙ COLETIVA
Ao final deste artigo, resta uma provocação. Maquiavel escreveu O Príncipe para um governante individual, na esperança de que um líder com virtù unificasse a Itália contra a invasão estrangeira. Montesquieu escreveu O Espírito das Leis para alertar que nenhum líder, por mais virtuoso que seja, pode substituir a arquitetura fria dos freios e contrapesos. Gramsci lembrou que a hegemonia se constrói na sociedade civil, não apenas no Estado. Lefort advertiu que o poder vazio deve permanecer “vazio” (tendo o povo como soberano máximo) para que a democracia viva.
O Brasil não precisa só de um príncipe com virtù, precisa de um povo com virtù. Precisa de eleitores que leiam, que comparem, que exijam, que fiscalizem. Precisa de uma sociedade civil que não delegue ao Ministério Público ou à Polícia ou à imprensa o trabalho que é seu por direito e dever. Precisa de cidadãos dispostos a perder ou ganhar o “amigo” na mesa do bar em nome da coerência, a confrontar o “tio” no grupo de família que compartilha fake news, a ir à assembleia do bairro, ao conselho escolar, à audiência pública da Câmara de Vereadores, e ao culto racional (Paulo aos Romanos 12: 1- 2) na igreja que lhe abra a consciência e o discernimento cívico-cristãos verdadeiros e não a subserviência lesiva, mentirosa e submissa a falsos mestres-pastores-profetas.
2026 será um divisor de águas. Ou o Brasil acorda para a responsabilidade histórica que lhe cabe — neste mundo em chamas, onde nações hesitantes serão devoradas — ou continuará a ser a piada geopolítica: “o eterno país do futuro que nunca chega”.
Como escreveu o próprio Maquiavel, no último capítulo de O Príncipe, Exortação a tomar a Itália e libertá-la dos bárbaros: “Não se deve deixar passar esta ocasião, para que a Itália, depois de tanto tempo, veja aparecer o seu redentor. (…) Não há nada que faça os homens tão estimados como as grandes e raras ações.”
Que 2026 seja o ano em que eleitores e candidatos escolham — cada qual em seu posto — a grande e rara ação de reconstruir este país não como espólio de alguns, mas como pátria de todos. O voto é a arma que o cidadão tem! Use-o com realismo, com estratégia e, acima de tudo, com a coragem de olhar nos olhos do candidato e perguntar:
- “O que você fará, de fato, pelo Brasil — e o que você está disposto a sacrificar por isso?”
Quem não responde, não merece o cargo. Quem não pergunta, não merece a democracia.
Edemundo Dias De Oliveira Filho.
Advogado. Delegado de Classe Especial, veterano. Pastor Evangélico. Especialista e Mestre em Políticas Públicas e Segurança Pública.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOBBIO, Norberto. O Futuro da Democracia. Tradução de Marco Aurélio Nogueira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.
BOBBIO, Norberto. Estudos sobre Maquiavel. Tradução de Marco Aurélio Nogueira. São Paulo: Unesp, 2011.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. v. 3.
LEFORT, Claude. O Trabalho da Obra Maquiavel. Tradução de João Marcelo Almeida. Brasília: UnB, 1999.
MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Tradução de Maria Júlia Goldwasser. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
MONTESQUIEU, Charles-Louis de Secondat, Barão de. O Espírito das Leis. Tradução de Cristina Murachco. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
SKINNER, Quentin. Maquiavel. Tradução de Renato Janine Ribeiro. Porto Alegre: L&PM, 2017.