RÉQUIEM PARA EDSON O´DWYER – por Sérgio Habib
Era a década de 1970 quando conheci o professor Edson
O´dwyer, eu ainda na Faculdade e ele já reluzindo na
advocacia criminal da Bahia.
Naquela época, a Tribuna do Júri era a grande vitrine da
advocacia e o sonho de todo estudante de Direito era
estrear no Tribunal Popular.
Edson O´dwyer era um dos que mais tiveram brilho próprio.
Pude vê-lo inúmeras e inúmeras vezes, atuando, tanto na
defesa quanto representando a parte assistente.
Seu discurso lógico, concatenado, impressionava.
A força dos seus argumentos cortava como lâmina afiada o
silêncio do plenário do Júri.
Mas impressionava muito mais porque, embora fortes, densos,
irrespondíveis, seus argumentos eram ditos com uma
excepcional leveza, com uma extraordinária ternura, quase
em forma de oração, como se fosse um violino tocando
distante uma sonato solo.
A Bahia era outra, a advocacia criminal também.
O velho salão do Júri, no avoengo Fórum Ruy Barbosa, por
onde ecoavam às palavras de tantos e tantos grandes
advogados, era o palco das emoções, a Trincheira em que a
defesa se nutria para os grandes embates.
Ali, ao lado, podiam-se ver os campanários das Igrejas da
velha Bahia, suas ruas e vielas, seus cantos e encantos,
seus personagens e mitos, muitos dos quais protagonistas
dos crimes que eram julgados nos júris daquela época.
Edson O´dwyer foi o advogado completo. Escrevia com estilo
próprio, conciso e claro, com esmerada técnica e pleno
domínio da doutrina por ele lecionada na Faculdade de
Direito da UFBA.
Recordo-me de seu jeito manso e terno, de seu sorriso largo
e franco, de sua fala elegante e dócil, como nenhum outro
poderia ser.
Jamais se utilizou do tacape nas disputas judiciais. Sua
arma preferida era o florete, porque esgrimir era a sua
arte e o seu engenho.
Quem o visse conversando, com o seu fraseado elegante,
jamais poderia imaginar o gigante em que se transformaria
tanto bastando assomar a Tribuna da Defesa.
Naquele momento, operava-se a transfiguração do lago sereno
e calmo, assentado na mansidão da planície, em verdadeiro
vulcão de ideias e de argumentos, uma cascata de
pensamentos e frases, com a verve dos grandes oradores.
Como profissional, jamais conheci alguém que fosse mais
ético e mais gentil.
Sua advocacia era de excelência, sua forma de atuar
diferenciada, porque ele era um ser diferente e especial.
Edson O’dwer viveu um tempo em que os valores eram outros,
bem diversos dos de hoje em dia.
Não havia chips, computadores, HD’s, nada disso!
Quantas as vezes em que o vi levando suas petições para
serem datilografadas por Iaiá Loureiro, como faziam os
advogados daquela época.
Havia um clima de poesia naquelas tardes mornas da Rua
Chile, bem próximo do local em que ficava o seu escritório.
A Bahia ainda era impregnada pelo cheiro de dendê
volatizado no ar.
As sessões do Júri terminavam invariavelmente no Varandá,
de Sandoval, ou no Tabuleiro da Baiana, na Carlos Gomes ou
no Moreira do largo dois de julho.
Ali eram discutidos os principais lances do julgamento.
Em uma de suas muitas e inteligentes crônicas, ele se
refere às saudades dos tempos da Rua Chile.
Conversar com Edson era uma das coisas mais prazerosas que
se podia ter.
Adorava contar casos, depois transformados em livros a que
sua modéstia singular intitulara de “Lembranças… quase
memórias”.
Esse corte que dei no tempo foi inteiramente proposital,
porque foi assim que conheci e convivi com ele.
Ao conhece-lo, ainda no meu iniciado acadêmico, quando
fazia estágio no escritório de Renato Reis, Ruy Espinheira
e Washington Bolívar de Brito, pude constatar que muitos
buscavam espelhar-se em seu jeito de ser advogado, pois ele
sempre foi, sem dúvida, inspiração para toda uma geração de
advogados que, assim como eu, optaram por seguir os
caminhos, de difícil amanho, da combativa advocacia
criminal.
Passados os anos, tive a honra de ser por ele recebido na
Academia de Letras Jurídicas da Bahia, para ocupar a
cadeira de número 13, cujo patrono é o saudoso mestre
Orlando Gomes, ocasião em que ele emocionou a todos com o
tom de sua saudação no recipiendário.
Edson foi homem de gestos largos, braços abertos e coração
abeirado à emoção.
Não raro, percebia lágrimas em seus olhos ao discorrer
sobre determinados temas apaixonantes.
Sempre que falava na família, amigos que partiram, tempos
de sua mocidade, seus olhos marejavam como se fossem
respingados pelas vagas da emoção.
O tempo de Edson O’dwyer foi o tempo áureo da advocacia
criminal.
A Bahia tinha a melhor estirpe de advogados criminais do
País.
A nossa tradição de oratória, fosse a jurídica – com a
influência de Ruy – fosse a poética – com a genialidade de
Castro Alves – sempre foi admirada e respeitada.
Aquele foi o tempo em que, nos átrios dos tribunais,
reverberavam as defesas inflamadas de Edgar Mata, Dorival
Passos, Carlito Onofre, Ruy Penalva, Fausto Penalva,
Arnaldo Silveira, Jaime Guimarães, mestres do passado.
Contemporâneos de Edson O’dwyer destacavam-se, com não
menos genialidade, Raul Chaves, Renato Reis, Geraro
Oliveira, Thomas Bacelar, Ruy Espinheira, João de Melo
Cruz, Tilson Santana.
A sensação que me dava, mero estudante de Direito, era a de
formiga contemplando as constelações celestiais.
Mas, como disse Stephen Hawking: “Sempre olhe para os céus,
sempre fite as estrelas… não custa nada sonhar…”
O tempo de Edson O’dwyer foi o tempo do sonho, do ideário
libertário, o tempo em que as emoções ficavam aspeadas nos
suspensórios da vida.
E ninguém viveu tão intensamente o seu tempo quanto ele.
Certa feita, me confidenciou que era um homem realizado,
plenamente feliz! Eu lhe respondi, que isso não era
segredo, essa confidência não valia, todos enxergavam nele
um homem feliz, bofejado pela benção divina!
Queixava-se apenas que os amigos, quase todos, senão todos,
tinham morridos.
Em outra de suas crônicas, dizia que ficar velho não era
problema, pois todo mundo envelhece… ou morre. E
completava: “todos morrerão, ainda bem, inclusive os
ditadores… ainda bem”.
Tinha um humor fino e desconcertante, nobreza no nome, mas
bem mais nobre na forma de ser.
No brasão de sua família está escrito “virtus sola
nobilitas” (a virtude é a única nobreza).
Assim foi Edson O’dwyer, seu tempo, seu jeito de ser, seus
sonhos, seu ideário, enfim, o ser humano magnífico que foi
ele ao longo de toda a sua existência.
Agora, lamentavelmente, está na hora de partir… Enquanto
isto, nós outros, aqui, impotentes abeirados a esta nau
que, logo mais, vai singrar o espaço sideral, levando
consigo o pai, o esposo, o avô, o amigo, o professor, o
advogado para palmilhar outra dimensão, em outro plano,
seguindo os desígnios de Deus!
Poderia repetir com o poeta: “Como pode caber a imensidão
de gestos do tanto que ele foi, nos contidos espaços desse
esquife?”
Certamente que vai envergando a velha beca do criminalista,
a mesma que lhe serviu de indumentária por toda a vida, e
com a qual defendeu tantos e tantos que dele necessitavam
nos momentos difíceis da vida.
Lá se vai o mestre Edson para a sua última tréplica de
defesa, com a certeza inabalável de mais um veredicto pela
absolvição, desta feita, não pela justiça dos homens, mas,
sim, desta vez, pela Justiça Divina.